quinta-feira, 14 de junho de 2012

Das coisas incompreensíveis


Enquanto ele andava ao meu lado, tentei encontrar algo ali, em mim. Qualquer pista, qualquer sinal, de qualquer coisa que fosse. Quem sabe um frio mínimo na barriga, alguma ardência nas bochechas, ou talvez uma gotícula de suor frio nas mãos? Mas nada. Eu não sentia nada, por mais que quisesse (eu queria?). Fui até o âmago do meu ser, entretanto nada além de um imenso e insondável vácuo. E era como se eu não mandasse em mim mesma (talvez não mande mesmo), como se eu não fosse eu, não fosse minha. Se eu posso correr, pular, pegar um livro numa prateleira alta, por que diabos não posso enfiar amor no meu coração? Por que eu só quero quem não me quer, quem não está dando a mínima para mim? Por que eu não posso retirar esse amor e pôr outro – duradouro e recíproco – no lugar? Afinal, quem está no meu controle? Que espécie de “máquina” doentia eu sou que prefere magoar-se todos os dias a querer alguém que me quer? Seria tão bom se fôssemos capazes de seguir somente nossa razão. As nossas emoções só nos fazem afundar, afundar e afundar cada vez mais em nós mesmos e em nossas ilusões. Cansei delas, sério.


Ele continuava ali, ao meu lado, caminhando. Chegamos ao nosso destino e nada, nada de eu conseguir encontrar uma faísca sequer de amor no meu peito.

sábado, 9 de junho de 2012

O sujo e o mal lavado

Em um bar, às nove da noite, um grupo de amigos que não se via há muito tempo marcou de se encontrar.
Entre o vai e vêm de assuntos, os colegas começaram a falar de suas mulheres e sua vida particular, até que um deles segreda:
- Eu não sei mais o que fazer. Estou apaixonado por três mulheres ao mesmo tempo e tenho a certeza de que todas elas me amam. Eu não sei com quem ficar.
Os que não tinham mulheres o olharam com inveja, como se pensassem "me empresta uma", os que tinham não cansavam de dizer "espertinho...", mas somente um se manifestou total e irrevogavelmente contra:
- Como assim, cara? Isso é um absurdo. Você precisa escolher uma e acabar com essa farra. Quando elas descobrirem que você as trai, tem noção de como irá magoá-las? Elas têm sentimentos, meu amigo. Se você as ama como diz, precisa pôr um fim nisso e já, porque senão tudo virará uma bola de neve e, quando você acordar desse "sonho", será impossível juntar tudo e remendar, como nós homens insistimos em fazer sempre.
- Eu sei, eu sei. Mas eu amo as três. É impossível se decidir por uma só. O que eu faço?
- Fique sem ninguém, ora. Vai ser melhor, eu garanto. Um dia, você encontrará a pessoa certa e esta valerá mais que todas as mulheres juntas desse mundo.
- Nossa, colega. Sua mulher deve fazê-lo muito feliz! Quem dera eu se tivesse essa felicidade!
- É, elas me fazem muito feliz, mesmo.
- Elas? Como assim? Você tem filhas?
- Não, refiro-me às minhas duas mulheres. 
De repente, todos, que estavam prestando atenção à conversa, olharam desconfiados e o que tinha três mulheres falou ao que tinha duas:
- Mas não foi você que disse que isso era um absurdo? Que elas têm sentimentos e que eu iria magoá-las?
- Foi, amigo. Eu sei que duas mulheres é muito, mas eu só o aconselhei porque três, convenhamos, três é demais.